Oto Otávio. Isso é nome que se dê a uma criatura? Seu pai era fissurado nos gibis do Homem-Aranha e o batizou em homenagem ao seu vilão favorito. Passou infância e adolescência sendo chamado de Ototário pela patuleia impiedosa e ganhando polvos de pelúcia em datas festivas. No seu aniversário de 15 anos, porém, foi presenteado com um livro que mudou o seu destino: “Octopus: the ocean’s intelligent invertebrate”, de Roland C. Anderson, James B. Wood, Jennifer A. Mather. Ficou fascinado pelos cefalópodes que – indiretamente – infernizaram sua vida. Descobriu que eram animais muito inteligentes, capazes de aprender, e que tinham linguagem própria. A partir dali, decidiu que se tornaria o maior especialista do mundo na área. “Aí vão me chamar de Dr. Octopus”, pensou e riu por dentro como um cientista louco de filme B.
Num percurso de duas décadas, formou-se em biologia marinha e estudou com cientistas de renome como Jan Strugnell, Jennifer A. Mather, Alex Schnell e David Scheel. No fim, tornou-se assistente do Dr. Wen-Sung Chung, no Instituto do Cérebro de Queensland, na Austrália. Queria decifrar o “polvês”, como chamou a língua daqueles moluscos que tanto o fascinavam. Finalmente, assistiu a uma palestra do professor Tim Coulson na Universidade de Oxford e a luz se fez. O cientista estudava o impacto das mudanças ambientais na biologia evolutiva dos animais. Segundo ele, os octópodes, graças à sua engenhosidade e a capacidade natural de adaptação, seriam sérios candidatos a ocupar a vaga de espécie dominante da Terra depois da inevitável hecatombe climática – são capazes de editar seu RNA, sem a necessidade de alterar seu DNA, adaptando-se ao ambiente num piscar de olhos. De fato, em 2025 houve uma invasão em massa de polvos mediterrâneos no litoral sul da Inglaterra. O professor Steve Simpson, da Universidade de Bristol, associou o fenômeno à mudança de temperatura das águas marinhas.
Octópodes não costumam ser sociáveis, cada polvo é uma ilha; mas um bicho tão inteligente deve saber que só os mortos e os tolos não mudam de opinião. Em 2017, foi encontrada uma colônia de polvos-sombrios (Octopus tetricus) na Baía de Jervis, na costa leste da Austrália. A despeito de ficar no Pacífico, os cientistas a batizaram de Octlântida e o grupo contava 15 cidadãos. Sabe-se que os indivíduos dessa espécie têm personalidade própria, como nós, humanos. “Será que discutem política ou amaldiçoam os insensatos seres da superfície?”, matutou Oto. No fim do ano seguinte, descobriram um ajuntamento bem mais populoso, com cerca de 10 mil polvos-pérola (Muusoctopus robustus), uma espécie cabeçuda e roxa, no Monte Davidson Seamount, um vulcão submarino inativo lodalizado no extinto Santuário Marinho Nacional da Baía de Monterey, na costa da Califórnia (EUA). O lugar servia de berçário para os invertebrados. Embora maior, apresentava duas desvantagens: está a mais de 3 mil metros de profundidade e o polvo-pérola é bem menor que o polvo-sombrio, que vive a, no máximo, 60 metros abaixo da superfície.
Decidiu tomar uma decisão drástica: transformar-se-ia num cefalópode gótico. De verdade, não como um therion – ou aquele japonês que pagou dois milhões de ienes numa fantasia de cachorro. Tirou a ideia de “Discovery”, uma obscura série da franquia “Jornada nas estrelas”, da qual só ele gostava; tinha até o box de LaserDiscs. Na primeira temporada, o klingon Voq passa por uma dolorosa cirurgia – um processo chamado choH’o’ – para se transmutar física e mentalmente no humano Ash Tyler. O novo ser híbrido guardava os DNA, consciências e memórias de ambos. Àquela altura, já dominava os rudimentos de sua linguagem, que funciona como num balé: cada gesto tem um significado. Além disso, eles combinam esses movimentos com mudanças de cor de sua epiderme. A princípio, acreditava-se que esse idioma servia apenas para expressar mensagens simples, como emoções. Porém, ele é muito mais sofisticado. Como um estudante iniciante de húngaro, Oto já distinguia algumas frases.
Polvos têm vida curta, morrem aos 4 anos de idade. Isso seria um obstáculo intransponível para que formassem uma sociedade organizada e foi decisivo para que se submetesse ao sacrifício. Aumentaria substancialmente sua longevidade, misturando ao seu DNA genes de esponja-marinha e transmitiria o atributo aos seus descendentes. Dez mil anos de expectativa de vida? Nada mal, seria o suficiente para que os octópodes criassem uma civilização capaz de alcançar as estrelas. E ele veria isso.
Seria uma operação muito mais radical que a de Voq que, apesar da aparência horrenda, era humanoide. E vertebrado: se o extraterrestre teve que trocar todos os ossos do corpo, ele teria de retirá-los, além de acrescentar sete cérebros e dois corações. O que o consolava é que não precisaria seguir o rígido código de conduta dos klingons: poderia tomar anestesia. Só não conseguiria fazer isso sozinho, tinha de ser operado por alguém que desconhecesse os limites da ética. Procurou o Dr. Duplessis, exímio cirurgião de princípios maleáveis. Ofereceu-lhe um caminhão de dinheiro.
– Aceito! Pela Ciência e pela causa, tão somente, que fique claro! – respondeu o médico monstro.
Dormiu na sala de operações. Quando abriu os olhos, estava nas águas mornas da Baía de Jervis. Octlântida já contava com 27 moradores e era época de acasalamento. Não perdeu tempo: aproximou-se da fêmea que achou mais jeitosa e saudável. Trocou de cor algumas vezes e balouçou os tentáculos.
– Olá! Eu me chamo Ototário.
Publicado originalmente no Bruxelas 73/301

