Pra viver basta estar morto


Minha avó só deixava dar descarga na privada no fim do dia. Ficava uma catinga medonha. A turma chamava dona Rita de sovina, pois julgava que ela só queria economizar na conta d’água. Porém, vovó era sábia e prudente, não unha de fome: presumia o que estava por vir. Quem nasce no sertão nordestino sabe que a seca chega sem aviso; períodos de carestia são parte do seu ciclo de vida. A crise climática secou o mundo, só que dessa vez não faltou alerta; e aqueles seis litros que iam para o esgoto – o dobro do que dispunha por dia um cidadão de Kivu do Norte, na República Popular do Zaire, no fim do primeiro quarto do século! – hoje me fazem muita falta.

Não me lembro da última vez que tomei banho. Devo feder mais que aquele vaso sanitário. Tenho de me virar com 12 litros diários, quando 15 são o mínimo do mínimo necessário. Não abro mão de beber três. Sinto-me como Charlton Heston em “A última esperança da Terra”. Sem uma Rosalind Cash. Se ela estivesse aqui, cuidaria melhor de meu asseio. Lisa não quis se malocar comigo. Disse que era ideia de Zé Maluco. José Beato montou uma casa num poleiro de dez metros de altura na Faixa de Gaza entre o Parque da Maré e a Baixa do Sapateiro, mas não era doido; muito ao contrário, tratava-se de um gênio. Foi ele quem inventou a máquina de fazer água a partir do ar que tomei emprestada. O Zé também se entocou; entretanto, sua casa flutuante era bem conhecida, saiu até na TV. Meu refúgio, não. Procuro nem pensar onde estou. Tenho medo que me encontrem – vai que a telepatia foi tornada possível? A piada diz que somos melancias com ansiedade; pois bem, sou uma cucurbitácea paranoica.

É bem verdade que há algum tempo eu tinha parado com o hábito de tomar banho diariamente. Não é saudável para a gente e nem para o planeta, conforme nossa realidade atual comprova. Dia sim, dia não tá bom demais. Lisa foi morar comigo e reclamava dessa prática. Não adiantava eu mostrar os estudos científicos que comprovavam minha tese. Ela estava sempre cheirosa. Se banhava pelo menos duas, três vezes entre acordar e dormir. Também descobri o valor terapêutico do flato. Peidar com gosto faz bem à saúde. Um estudo da Universidade Exeter descobriu que, além de ser fundamental para uma boa digestão, fato mais que comprovado, cheirar o próprio peido pode evitar o câncer e o AVC. Sulfureto de hidrogênio é vida. Lisa achava um horror. Eu só peidava perto dela porque prezava o seu bem-estar.

Quando a vi nua pela primeira vez senti aquela euforia que bate quando você vira a noite e acredita que não vai dormir nunca mais. Sempre preferi as baixinhas de cabelo curto e ela era mais alta do que eu, tinha um magnífico par de melões – eu curtia manga espada –, quadris enormes e cabelos pretos, muito volumosos, longos, lisos, com franjinha, cortados abaixo da cintura. Me esbaldei naquela fartura; pequenos frascos, uma ova! Como morava sozinho na época, Lisa foi ficando pouco a pouco. Tornei-me um ermitão e ela, cativa involuntária. Possuía tudo o que precisava, não era mais necessário me arriscar nas ruas. Falei de minha preferência por calcinhas brancas minúsculas e ela comprava uma nova todo dia, sempre com alguma surpresa. Lembro-me, especialmente, da primeira de lacinhos, que desfiz como criança abrindo uma embalagem de presente antes de morder sua bunda esplêndida com sofreguidão.

Apesar de asseverar que me amava, Lisa preferiu se juntar à resistência. Não esperava menos dela, ativista inata e ainda jovem – talvez tenha sido por causa de minha noção heterodoxa de higiene, mas prefiro me agarrar a essa versão. Eu nem tinha esse apego todo à vida, ainda mais longe daquele corpo. Sobreviveria por meus princípios. O ser humano é 70% água. Ela renderia pra mais de 50 litros – só de imaginar, me dá sede; beberia ela todinha agora. Porém, duvido que tenha sido apanhada, exímia que é na arte do ninjutsu. Além de amante, me servia de guarda-costas. Numa rara saída, fomos ao recém-reaberto Dancing Méier assistir à apoteótica volta do Cólera, com Formigão, ex-Planet Hemp, substituindo o finado Redson nos vocais, e ela me protegeu na violenta mosh pit que se formou, como esperado. Quebrou alguns narizes. O meu, permaneceu intacto. Ter o nariz quebrado é uma fobia que carrego desde a infância; sou nascido e criado no Alto Leblon. Depois daquela selvageria, revigorei-me de forma a perder a noção do tempo. De volta ao lar, trepamos até dois sóis raiarem.

O galinheiro só aumentava a fedentina. Boa parte da água que eu produzia servia para dar de beber às aves e a regar minha pequena horta. Nada de faxina. Armazenei um estoque de latas de seleta de legumes que seriam o suficiente para me alimentar por dez anos, o tempo que calculava ainda ter; os galináceos me forneceriam a proteína animal basilar. Todavia, faltou-me coragem para o abate. A ideia de tirar uma vida me é repugnante. Felizmente, tinha um bom pé de ora-pro-nóbis, a carne do pobre, que fica ótimo no omelete. Além disso, as fezes do meu galinhame – que não tinha tantas reses assim, só Edmundo, Flora, Matelda e não mais que duas dúzias de pintinhos – serviam de excelente adubo para minhas hortaliças. De quebra, devoravam pragas; não mato nem barata. O problema é que galinhas e, principalmente, como é sabido por todos, galos são bichos barulhentos e poderiam denunciar minha localização. Esse pensamento, eu sabia, era apenas fruto de minha paranoia. Autoconhecimento é tudo.

Em novembro de 2025, a Organização Meteorológica Mundial estimou que 2,4 bilhões de pessoas seriam atingidas pela escassez hídrica até 2050. Foram otimistas. Os poderosos fingiam não acreditar na Ciência, mas ninguém ganha dinheiro sendo burro. O trilionário albanês Dažbog Çullhaj, mais tarde entronizado CEO (ou Dono) do mundo, era o homem mais inteligente da Terra e desde aquela época trabalhava numa solução. Os cientistas da žÇ desenvolveram uma tecnologia capaz de extrair água do corpo humano. Batizaram a máquina de Kupalnitsa e criaram versões portáteis, as rusalki. Não foi difícil recrutar um exército disposto a caçar incautos para retirar-lhes do corpo cada molécula H₂O. Çullhaj não era cruel, nobres – para ele – intenções o moviam. Pensava apenas na sobrevivência da espécie. Era prático e racional. Quis apressar o trabalho da seleção natural. O povaréu apelidou sua milícia de vampiráguas – em França, chamavam de eauvampyrs, muito chique.

Sonhei com dona Rita ao fogão, com um cigarro no canto da boca, em cinzas inteirinho até o filtro – ela não tragava, tampouco pitava; só gostava de sentir o cheiro de fumaça, pois detestava cozinhar e abominava o odor dos vapores exalados das panelas. Ao acordar, senti uma vontade irresistível de me lavar – sou muito suscetível aos súcubos. Para aproveitar a ocasião, peguei o retrato a caneta, já amarfanhado, que fiz de Lisa. Sou um ótimo desenhista. Cacei entre minhas memórias nossa primeira vez, especificamente quando pedi para ela ficar de quatro, segurei os seus cabelos e pedi que rebolasse e gemesse enquanto eu a penetrava, o que prontamente fez. Masturbei-me. Masturbar-se todo dia previne o câncer de próstata, é cientificamente comprovado – cabe um parêntese aqui: mesmo não fazendo a higiene completa, sempre deixei a glande limpinha, pois não quero pegar uma balanopostite.

Nessas horas, necessito de uma força sobre-humana para não me arriscar a procurá-la. Venho de família remediada, conheço cada canto da Zona Sul do Rio de Janeiro, graças às minhas excursões de juventude. Escolhi muito bem meu esconderijo. Os vampiráguas dificilmente se aventurariam naquela área. Era mais fácil pescar arraia-miúda. Ainda havia abundância de presas soltas na rua e meus vizinhos estavam armados até os dentes – creio, até, que cada um deles tinha a sua própria rusalka; devem ter consumido primeiro a criadagem e, depois, atraído famintos às suas covas. Só eu e José Beato tínhamos uma máquina de fazer água. Havia outro porém: de acordo com a paleta de cores da PM carioca recalibrada pelo ICE, eu já não era considerado branco – tinha ascendências negra e indígena. Este detalhe cromático fazia de mim caça preferencial.

A dura verdade é que está ficando mais difícil resgatar boas lembranças. Más, também. Tremo só de cogitar que todas podem ir embora. Estou perto dos 60 e abusei das drogas e do álcool – parei por causa da cirrose. Sem aquela boceta, já não passo de um morto-vivo. “Viver, simplesmente viver, meu cão faz isso muito bem”, escreveu Alberto da Cunha Melo. Nunca tive um cachorro, nem na infância. Nem um gato ou um porquinho-da-índia. Só galináceos, depois de velho. Não sinto a falta de nenhum amigo. Hoje, minha única ambição é que a impotência venha antes da amnésia total.

Conto publicado originalmente no Substack Bruxelas 73/301


Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *